sexta-feira, 8 de abril de 2016

Crónica de uma viagem de apresentação do Pé Descalço em 2 passos

À chegada a Lisboa, para dois dias de apresentações
Passo 1: 
Cheguei a um ponto em que posso afirmar que já fiz dezenas de apresentações do meu livro. Sim, dezenas, em mais de um ano de vida “pública” do Pé Descalço, seja em livrarias ou em bibliotecas, locais de esperada actividade para quem quer espalhar um livro pelo país, seja em igrejas, associações, bares, escolas, universidades ou gelatarias, locais onde a apresentação de um livro vai do exótico ao verdadeiramente inusitado. Milhares de quilómetros foram já acumulados nestas andanças, seja nos carros seja nos bancos de comboios, autocarros, aviões ou barcos, de norte a sul do país, ilhas incluídas. Muitos me perguntam porque o faço, se me dá gozo, se vale a pena… Costumo responder com três simples respostas (desculpem a redundância!): para o livro e as suas ideias chegarem a muitos, TENHO que fazer este trabalho de proximidade, pois de outra forma ele não chegará às pessoas (é assim o mercado, simplesmente); adoro viajar e conhecer pessoas, e assim também o consigo; mas mais importante que tudo isso, adoro mudar a vida das pessoas, adoro provocar mudança e ver miúdos e graúdos a crescer e viver melhor! Digo isto porque estive a reler os reviews do livro e das apresentações, estive a rever as mensagens do facebook de miúdos que já começaram a mudar as suas vidas pelo trabalho que andamos a fazer, e isso vale por tudo! Escrevi o livro para ajudar as pessoas, e por isso cada vida tocada é uma GRANDE vitória!

Passo 2: 

Uma vez que a Amélia adoecei na passada quarta, e que estava na mesma na quinta de manhã, acabei por partir para Lisboa sozinho, para dois dias de apresentações e reuniões por causa do livro. Eu tinha já consciência de quão importante é e tem sido o seu trabalho, mas a dureza de dois dias com duas malas de livros, rollup, roupa, portátil e restante tralha às costas, sem alguém para me ajudar com datas, horas, nomes de pessoas e “quem pediu e disse o quê”, essa dureza faz-me querer reconhecer desta forma esse trabalho, dela e de outras cinco pessoas que têm, nos bastidores, levado o Pé Descalço a muitos. Por isso… obrigado Amélia Fernandes, tens sido incansável nos últimos meses, e sem ti tudo seria confusão e caos, no meio das dezenas de solicitações que recebemos e das centenas de emails e notas; obrigado Paula Lobo, sem ti não haveria livro, as primeiras entrevistas teriam sido imprevisíveis e a minha ignorância “facebookiana” estaria bem mais à vista; obrigado Miguel Frade, sem ti não teriamos site, nem teriamos ninguém a quem importunar quando ele fica em baixo; obrigado Sr. Rodrigo e AveGráfica, sem vocês não haveria um exemplar do Pé Descalço sempre pronto para entregar; e obrigado a ti, “minha” Sofia Seabra Frade, porque sem ti nem sei como estaria vivo no meio de tanto trabalho! Perdoem-me a lamechice, mas sinto mesmo vontade de “verbalizar-escrevinhar” o que sinto… e o que sinto é gratidão, a muitos que participaram neste projecto, e nesta fase a estes em especial.

E pronto, faltam duas horas de comboio até ao Porto… É tempo de por o sono em dia.
Boa viagem!

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Foi há três anos!


Mural de boas vindas na Mundos de Vida, há 2 anos atrás
Três anos... 
Já passaram três anos.... 
Parece que foi ontem; parece que ainda ontem estava a sair do comboio em direcção à Mundos de Vida, depois de 13 alucinantes dias de viagem pela Europa; parece que ainda me obrigo a passear os dedos pelo teclado do portátil, acreditando que conseguiria acabar mesmo o livro (aconteceu tantas vezes!...); parece que sinto a emoção da apresentação, das intermináveis horas de trabalho que ultrapassámos para que ela acontece; parece que ainda flutuo algures pelo país, por entre os milhares de quilómetros de apresentações já percorridos... Parece que foi ontem, que ainda não foi, parece-me...irreal!

Sou um autor de “primeiro livro”, é verdade, mas sinto-me já orgulhoso do que já alcancei: 7.000 exemplares de um livro de um autor desconhecido; tantas participações na TV, rádio e imprensa escrita e online; convites para palestras e apresentações, em tantos contextos diferentes; ser reconhecido na rua, ter um livro que as pessoas reconhecem quando lhes ligamos; ouvir que “o livro mudou a minha vida”, “tudo ficou diferente” ou simplesmente “obrigado!”... Enfim, a lista de vitórias continua, uma a uma, por uma nuvem de coisas que nunca pensei fazer sequer!

Permitam-me contudo corrigir um detalhe do que escrevi acima: estou orgulhoso do que NÓS já alcançámos, porque sem a Sofia, a Paula, o Bruno, o Miguel, a Detalhe e a BCLab não teríamos livro; sem a AveGráfica e a Urbanos Press não haveria livros nas lojas de todo o país; sem a Best Travel Guimarães, sem a Guimafluxo, o Grupo Migas e todos os outros parceiros e fãs, não teria havido sequer a aventura!; e sem a Amélia, mais recentemente, não estariam em cima da mesa as várias DEZENAS de apresentações, workshops e palestras que se aproximam, ou as centenas de possibilidades que se perfilam para 2016 e anos seguintes! A todos, e aos que não mencionei mas que estão o meu coração, tenho que deixar o maior obrigado do Mundo!

“E agora?”, perguntam-me tantos, quando me vão encontrando... Agora? Agora temos o mundo pela frente!
Temos um livro para traduzir para inglês e para adaptar para português do Brasil; temos dezenas de apresentações, palestras e workshops agendados ou pedidos; temos milhares de livros para editar e fazer chegar a muitos; temos quilómetros e quilómetros para percorrer, bibliotecas para visitar, pessoas que queremos envolver e ideias que vamos implementar. E (quem sabe?) outras viagens e desafios para concretizar!

O Pé Descalço está pronto para o seu terceiro ano de vida, para uma nova fase, para novos desafios e aventuras. Obrigado por estar connosco!!!

sábado, 19 de setembro de 2015

Crónicas dos Açores - Episódio 4

No topo do Pico, com um frio de rachar,
à espera do nascer do Sol
Chegámos ao topo do Piquinho (a última "mini-cratera" dentro da grande cratera que encima a montanha do Pico) ainda antes do nascer do Sol uns bons quarenta minutos. Cheguei absolutamente exausto e mal encarado, com um historial de quinhentas mil pragas rogadas ao monte em menos de quatro horas, tal o esforço de subir a maldita montanha com uns bons quilos a mais que da última vez (seis anos antes) e em baixo de forma... MAS SUBI, CARAMBA! E aproveitei o tempo que faltava para me enfiar no saco-cama, encostar a uma fumarola quentinha (estava um frio de rachar) e dormir uma bela sesta de vinte minutos. Em segundos apaguei-me...

Acordou-me algum tempo depois o grande Renato Goulart (o meu guia da subida, detentor de todos os records daquela montanha e um fantástico "reboque" para os que ali vão... digamos, em baixo de forma!), o Sol nasceria em breve, apesar do tempo enevoado. Sentei-me ainda ensalsichado no saco-cama, olhando o horizonte e repassando as aventuras da ilha do Pico. Deixem-me partilhá-las convosco!

Chegara à ilha do Pico dois dias antes, ao final da tarde, e já com o carro nas mãos (obrigado Autatlantis outra vez!) seguira para o simpático Parque de Campismo da Furna, em S. Roque do Pico, onde anos antes montara tenda também. Era tempo da primeira sessão de lavagem a de roupa à mão, que já contava quatro dias de viagem, e por isso passei uma boa hora a esfregar, ensaboar e enxaguar.
O segundo dia, por outro lado, começara com a visita à biblioteca de S. Roque do Pico, onde ficou um exemplar do Pé Descalço, e continuou com a ida para as Lajes do Pico, onde fui muito bem recebido na Câmara Municipal pelo vereador da cultura (que, ao cumprimentar, reconheci como "o" Hildeberto, um colega de curso, em Leiria... o mundo é pequeno!). Seguiu-se um maravilhoso polvo guisado, no simpático restaurante Lagoa, e uma calorosa recepção no Museu dos Baleeiros.

Apresentação do livro no fantástico auditório do Museu dos Baleeiros
Quanto ao museu dos Baleeiros tenho que vos dizer, sem mais delongas, que foi uma das mais bem conseguidas de sempre: num auditório fantástico (em forma de barco, todo em madeira!), com uma divulgação eficaz e uma audiência composta, sorrisos maravilhosos e muita vontade de ouvir as histórias da viagem e do projeto! E no final (imaginem!) ainda tivemos um Pico de Honra, com queijo típico e vinho licoroso da ilha, oportunidade ímpar de degustar as delícias dos Açores e detrocar ideias com quem por ali ficou. Meus caros prof. Manuel Costa e a menina Laurisabel, muito obrigado: foram inescedíveis, em articulação com a câmara municipal e a biblioteca, e fizeram com que tudo funcionasse sobre rodas!
Terminada a apresentação, pelas 23:30, era tempo de rumar à Casa da Montanha, onde o Renato me aguardava para a subida de quatro horas.... No fundo, subira o Pico sem dormir, por isso imaginem o quão demolidor tinha sido a subida.

Nascer do Sol, no topo da montanha do Pico
O Sol começara a despontar entretanto, numa lenta caminhada para fora das nuvens. Foi um dos mais bonitos que já pude presenciar, com cores e nuances magníficas refletidas na cama de algodão fofo que as nuvens faziam lembrar... Lindo! Foi tempo do "Pé Descalço, o livro mais alto de Portugal!", no Facebook, e de encarar novamente a montanha demolidora. Esperava chegar inteiro e capaz, pois depois da noite sem dormir ainda havia a passagem pela biblioteca da Madalena (obrigado menina Fernanda) e uma venda no cais marítimo João Quaresma, também na Madalena (obrigado Portos dos Açores)... E EU A MORRER DE SONO E CANSAÇO!!! Foi por isso que decidi apreciar uma última vez a paisagem, encher-me de coragem e partir... afinal, tudo se iria ultrapassar, como sempre!


"Pé Descalço", o livro mais alto de Portugal, com Ricardo Frade e Renato Goulart, o recordista da montanha do Pico!








domingo, 13 de setembro de 2015

Pequenos gestos aleatórios de Amor


Em Quarteira, à espera do autocarro para regressar ao norte
Estou neste momento a aguardar o autocarro que me levará ao norte, depois de 3 dias de apresentações pelo Algarve. Enquanto espero não resisto a partilhar convosco uma sequência de três fantásticas situações que me aconteceram hoje.

Depois de uma conversa com o Pe. José Campôa, ficou combinado que iria apresentar o livro às comunidades de Quarteira e Vilamoura, hoje de manhã. Assim foi, e o primeiro episódio aconteceu em Quarteira: estava eu a vender livros depois da missa, quando um cavalheiro inglês me abordou, pedindo que lhe explicasse em que consistia o livro e o projeto. Ao perceber que havia uma causa social envolvida, entregou-me 50€, levou um livro e sugeriu que usasse o remanescente para “financiar” um livro a quem não pudesse comprar. Agradeci, e continuei o meu trabalho.

O segundo episódio, já em Vilamoura, surge na sequência deste: uma senhora aproxima-se da banquinha, pergunta mais sobre a história, e no fim diz-me que gostava de comprar, mas como estava desempregada e a situação estava a ficar muito complicada não poderia fazê-lo... A ligação ao episódio anterior foi imediata na minha cabeça, e eu poucos segundos a senhora tinha o seu livro na mão, autografado, cortesia do cavalheiro inglês. A forma comovidíssima com que me agradeceu fez-me relembrar porque escrevera o livro... para ajudar muitos!  E ali estava a acontecer!!!

O terceiro episódio acontece já comigo a arrumar os 7 livros que sobravam, com a última pessoa que se abeirou da banca. A senhora quis conhecer o projeto e o seu mentor, e depois de lhe explicar tudo acabou por pedir um livro, para uma das netas. A conversa continuou, e a certa altura vira-se para mim e pergunta quantos livros sobram... “dará um para cada um dos meus netos?”, perguntou. Querem saber quantos netos tinha?... Pois, é isso: sete!

Costumo dizer que o que deixamos cá, quando partimos, são apenas as memórias e o que de bem fizemos neste mundo... Cada passo desta aventura do Pé Descalço tem vindo a confirmar isto, e por isso deixem-me repetir: a vida é bela!

domingo, 6 de setembro de 2015

Crónicas dos Açores - Episódio 3

Praia do Almoxarife
Pouco passava das 8h da manhã quando saltei para a areia preta da praia do Almoxarife. Estava deserta, como suspeitara, vigiada pela imponente montanha do Pico, do outro lado do canal, e o mar calmo pedia um belo banho madrugador... Assim aconteceu, naquelas águas quentes e transparente, matando as saudades de quando ali estivera pela primeira vez, há alguns anos... era um sítio maravilhoso! A visibilidade debaixo de água era óptima (para uma praia de areia escura), e a quietude do mar transformava-o numa piscina para quem, como eu, adora nadar.
Depois do banho, enquanto secava esticado na toalha, aproveitei para rever o dia anterior... e havia tanto que rever!...

Apresentação no Peter Café Sport
Após uma aterragem "sem espinhas", na Horta, e já sentado no carro que a Auto Turística Faialense tinha preparado para mim, passara pelo Peter a rever detalhes para a apresentação e seguira para Almoxarife, onde a Susana me esperava com um prato de atum fresco, acabado de cozinhar. Fora ela a minha anfitreã naquela noite, graças ao Couchsurfing, na sua bonita casa de portadas de princesa (cor-de-rosa), que gentilmente partilhava comigo. É esta a magia do Couchsurfing, encontrar pessoas fantásticas um pouco por todo o lado, e a Susana foi claramente uma dessas pessoas!
Depois do jantar voltara ao Peter, onde mais uma vez fora muitíssimo bem recebido pelo sr. José Henrique, o terceiro "comandante" do mítico bar, fundado pelo seu avô. Aos poucos a sala foi-se compondo, à medida que a apresentação se aproximava, e continuou depois, para ficar quase cheia de interessados ouvintes, ávidos da história, dos detalhes do livro e das ideias que partilhava nele. Tinha sido um momento interessantíssimo, com gente de idades e origens diferentes, onde a partilha fora rainha e todos aprendemos um pouco. A segunda apresentação também já estava, faltavam sete ilhas!

Estava assim embalado nos pensamentos quando chegaram a Susana e o Zé (outro couchsurfer), para o banho matinal. Voltei à água quente do Atlântico para umas valentes braçadas, e depois de mais algum tempo ao sol voltámos à casinha simpática com portadas de princesa. À nossa espera estava um pequeno-almoço dos deuses (obrigado outra vez, Susana), porque é disto que o Pé Descalço é feito: pessoas boas, fantásticas, um pouco por todo o lado. Era tempo de redescobrir o Faial, e tinha todo o dia para o fazer!



quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Crónicas dos Açores - Episódio 2

Acordar com o mar a poucos metros foi uma sensação especial, até porque a diferença horária (que me esquecera de incluir no relógio) me fez chegar à varanda demasiado cedo, já com sol mas ainda no silêncio de uma aldeia que dorme. Avizinhava-se um dia fantástico, e assim foi.
Depois de um pequeno-almoço de lorde (mais uma vez obrigado Helena e Márcio), segui para Angra para entregar um último livro a alguém que não pudera estar na véspera, e parti à descoberta da Terceira.
A primeira paragem foi o Monte Brasil, de onde se avista Angra como de nenhum outro sítio; depois veio Santa Bárbara, o pico mais alto da ilha; e por fim as piscinas dos Biscoitos, para um banho revigorante antes de voar para o Faial. Foi um dia descontraído, sem dúvida, numa ilha maravilhosa.

Ao embarcar no Dash Q400 da Sata, o maior dos aviões que voa entre-ilhas, invadia-me uma certa "tranquilidade inquieta": por um lado tinha sido maravilhosamente recebido ali (o jantar na marina de Angra - com todas as iguarias da terra e histórias sem fim - oferecido pelo IAC, no final da apresentação, era disso um claro exemplo!), mas por outro faltavam 8 ilhas, com os seus contextos diferentes, algumas com incertezas absolutas até quanto ao lugar da apresentação!...  Bem, pensei ao recostar-me para a descolagem, tudo há-de correr pelo melhor, e quanto às incertezas havemos de as resolver uma a uma! 

Era tempo de me concentrar na próxima apresentação, em apenas quatro horas, no mítico Peter Café Sport, na Horta (Faial)... e tempo de bater uma sesta!

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Crónicas dos Açores - Episódio 1

Passavam já quase vinte minutos da hora marcada quando cheguei ao Instituto Açoriano de Cultura (IAC), em Angra de Heroísmo. Depois de quase cinco horas à espera em Lisboa, de onde saímos com um ligeiro atraso, de ver o tempo a escorrer-se até aterrarmos nas Lajes (Terceira), de esperar pela minha vez (que nunca mais chegava) para levantar o carro na Autatlantis e de seguir rumo à via rápida que atravessa a ilha, meio a voar... estava atrasado, nada a fazer, e naquela altura a solução era estacionar, pedir desculpa à pessoas e começar a apresentação.
Foi no meio deste meu frenesim ocidentalizado de escravatura do tempo que, ao entrar na sala, ouvi a primeira piada de muitas, que me foram recordando que ali a vida era diferente: "Ui, homem, só de olhar para si aí a correr até já estamos cansados!...". Pois...

Escusado será dizer que a apresentação foi fantástica, que fui muito bem acolhido, que me fizeram milhentas perguntas e que tivemos ali um memorável momento de partilha! Saí do IAC com uma sensação reconfortante do tipo "agora é que é a sério!", ainda mais porque esta apresentação tinha sido "fechada" dias antes, numa correria de contactos e pistas que tantos me foram dando! Obrigado também Burra de Milho pela ajuda, e a todos os que me fizeram ali chegar!
Era tempo de descansar o corpo, de enxaguar o cansaço de um dia passado em viagem, aproveitando a gentileza de quem, ali, me acolheu de forma espontânea... obrigado Helena e Márcio, por me acolherem tão bem!


terça-feira, 11 de agosto de 2015

Crónicas dos Açores - Episódio 0

Quando escrevi o Pé Descalço queria levá-lo a muitos, para que as ideias por trás da viagem pudessem ajudar as pessoas a levantar voo. Queria, e quero!

Como não sou o José Rodrigues dos Santos, não basta editar e ir à televisão e rádio, é preciso fazer estrada, conhecer pessoas e partilhar a história, num exercício de proximidade que tem tanto de fantástico como de cansativo, que provoca euforia, alegria e muitos sorrisos, mas também dúvidas e desespero, em alguns momentos. Foi assim um pouco por todo o lado, com apresentações cheias de gente ou com dois ou três, com surpresas em locais inimaginados mas gente boa em todo o lado. Os Açores não foram excepção: foram dias muito intensos, que alguém disse já merecerem um livro, por si só...

Um livro não será, mas as crónicas aqui estão, para que muitos possam "sentir" esta viagem comigo, para que possam desfrutar da sensação de encontrar paz e gente fantástica em todo o lado, obstáculo após obstáculo.
Bem-vindos às Crónicas dos Açores!

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Rumo aos Açores e à 4.ª edição

As últimas 6 semanas foram de um trabalho intensíssimo. Desde a própria viagem do Pé Descalço que não tinha um período de trabalho tão forte ligado ao livro: serão 9 apresentações (ou mais, que ainda há algumas por confirmar!) do livro, pelo menos uma em cada ilha desse nosso paraíso que são os Açores. As malas estão feitas, os livros foram enviados, o plano está praticamente fechado e avião espera-me no Porto, em menos de 4 horas. Daqui a pouco darei a 3.ª entrevista a uma rádio açoriana, a consolidar a sensação de que todo o mundo se interessa pelo projeto quando o descobre... o que é maravilhoso, para nós e para quem pode, assim, ler o Pé Descalço.

No outro dia, falando com outro escritor "iniciado", discutíamos o ciclo de vida de um livro como estes... As lojas são muitas vezes levadas a achar que um livro assim dura apenas alguns meses nas prateleiras, que "passa a onda" muito rapidamente, e que se vendermos mil será fantástico... Pois bem, eu acredito que o Pé Descalço, sete meses depois do seu lançamento, ainda está a começar a chegar aos Portugueses: acredito que o seu ciclo ainda mal começou, que muitos mais irão ler esta aventura e que outros tantos terão a oportunidade de se interrogar sobre as suas vidas, de melhorar a sua realidade, com base em tudo o que o livro encerra. "És doido!", dizem muitos... A esses respondo que já vim da Suécia sem dinheiro ("é de loucos!"), que já vamos na terceira "fornada" ("quase impossível") e que vou correr os Açores ilha a ilha ("desperdício de tempo e dinheiro!"), porque muitos o pediram e outros tantos se entusiasmaram quando souberam da ideia! Porque cada contacto novo gerou entusiasmo em todo o tipo de pessoas e instituições, que se prontificaram a receber-me e ajudar-me a chegar ao público açoriano. E porque eu sou assim, acredito que consigo e sigo em frente, deixando os velhos do Restelo para trás, sempre com os olhos postos na meta!

O Pé Descalço começa hoje a aventura dos Açores, e eu mal posso esperar por tudo que vai acontecer por lá! E vocês?

terça-feira, 21 de abril de 2015

O Pé Descalço na Curva de Rogers!

A viagem do Pé Descalço já vai longa, mas na realidade ainda mal começou... os próximos tempos serão frenéticos!!!

Porquê?
Por causa da curva de Rogers, claro!!!

A curva de Rogers é uma teoria comercial simples: se conseguirmos envolver inovadores suficientes (os nossos crowdfunders) chegaremos aos primeiros adeptos (os primeiros a comprar o livro), e se envolvermos primeiros adeptos suficientes e dermos o salto, o livro vai voar das prateleiras!... 
É por isso que Maio será um de trabalho louco: apresentações, entrevistas, palestras, Lisboa, Cascais, São João da Madeira, Faro, e mais algumas paragens pelo caminho... Só! Pois bem, venha o trabalho que nós estamos prontos, e assim vamos DAR O SALTO!!!


sexta-feira, 14 de novembro de 2014

O caminho é mais fácil com uma equipa vencedora!

Quando a minha viagem louca acabou, estimei em 3 a 4 meses o tempo necessário para editar o livro... como estava errado! Como se organiza o texto? Como combinar os tempos verbais? No presente ou no passado, primeira ou terceira pessoa? Quantos capítulos, quantas páginas?... Depressa percebi que iria ser MUITO mais difícil do que um artigo de jornal ou trabaho de investigação: seria uma aventura!

Pelo caminho aprendi a redigir textos looooooonngos, aprendi a paginar, a rever e a estruturar capítulos, epílogos, prólogos e dedicatórias, folhas de rosto e falsas folhas de rosto, tirei quase um curso de auto-publicação e aprendi a gerir melhor as redes sociais. A quem me perguntou expliquei, repetidamente, que o livro custou bem mais que a viagem... é verdade! Não fôra a Paula e ainda estaria encalhado à espera da inspiração... E, por falar em inspiração, ainda houve uma boa mão-cheia de dias em que, computador à frente, nada saía da mente cansada!

Um ano e dez meses depois, eis que tudo foi ultrapassado: fiz hoje a primeira encomenda de 1.000 livros, que espero vender em poucas semanas. Sim, escrever o livro foi um desafio, fazê-lo chegar ao mercado também, mas o desafio maior é o próximo: fazê-lo chegar a muitos pelo Mundo fora! Isso é, realmente, o objectivo de um livro, fazer-se conhecer por muito, espalhar o seu encanto por tantos... Isso é o mais importante, e será um desafio titânico!

Apesar disso, nunca o meu trabalho foi tão fácil: depois de uma viagem sozinho, depois de uma livro criado com uma pequena equipa de gente louca como eu, espalhar o livro por aí será bem mais fácil, pois para isso conto com uma equipa vencedora... VOCÊS!

Temos centenas de livros para distribuir: vamos a isto, vamos juntos transformar o Pé Descalço num sucesso!!!
A nossa (minha e vossa) aventura vai agora começar!

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Estamos grávidos! (by Mafalda Frade)

Enquanto escrevia o livro fui descobrindo que estava a contar uma história com uma forte mensagem de clareza e esperança. A quem, como eu, se sente tentado a olhar para o Mundo e a achar que somos demasiado condicionados pelo que tem que ser, pela carreira obrigatória, por tudo o que os outros esperam de nós, fui dizendo que há mais do que os olhos alcançam!

O que hoje vos trago, porém, é um texto que ultrapassa tudo o que fui dizendo no livro. 
Escrito por uma "menina" de seu nome Mafalda Frade, minha prima, é provavelmente um dos mais fantásticos que alguma vez li. 
Partilho-o convosco porque (como lhe disse a ela) o mundo anda louco, mas ela (eles!) souberam bem escolher outra via.
Mafalda e Ricardo... os meus mais sinceros parabéns!




Estamos ‘grávidos’.
Pois é, vem aí uma nova Maria. Que traz consigo já, nas 25 semanas de vida que leva, algumas histórias para contar. A maior delas partilha-a com a mana mais velha, ainda que não saibamos se com o mesmo desfecho. Começa sensivelmente a meio de julho, com o chamado rastreio pré-natal, teste que revela as probabilidades de o bebé ter trissomia 21, 13 ou 18, permitindo aos pais, caso queiram ter certezas, realizar a amniocentese (para decidir o que fazer, ou seja, basicamente, abortar ou não). É um exame invasivo que envolve riscos, como o de aborto espontâneo (cerca de 1% das crianças morre) ou de infeções uterinas. 

Tal como aconteceu com a Maria Carolina, o teste indicou uma probabilidade maior que o normal de esta nossa filhota ter síndrome de Down. Quando da gravidez da Carolina, e porque tínhamos decidido, ainda antes de casar, que aceitaríamos os filhos que tivéssemos como eles viessem, decidimos não fazer a amniocentese porque não queríamos colocá-la em risco quando já tínhamos decidido que a queríamos nos braços fosse deficiente ou não (o que seria de mim hoje se a Carolina não tivesse sobrevivido ao exame?). No caso dela, nasceu sem qualquer síndrome.

Confrontados agora com o que já tínhamos vivido, voltámos a tomar a mesma decisão: não faríamos a amniocentese porque não queríamos pôr a nossa bebé em risco. Não precisamos de saber como ela é. Queremo-la como for. E sentimo-nos muito tranquilos na nossa decisão. Temos vivido estas semanas sem quaisquer dramas a esse nível, tranquilos e a AMAR já imensamente esta filha que trago dentro.

Mas há uma coisa que me inquieta: é ter ido a duas consultas médicas em que os médicos, porque recusei a amniocentese, olharam para mim como se eu fosse uma anormal, numa incredulidade que me espantou. Como se aceitar um filho mesmo com a probabilidade de ele ser deficiente fosse próprio de uma pessoa que não bate bem da bola. Como se amar um filho acima de tudo fosse estranho. 

É que, percebi, a lógica de muitos médicos é que se deve fazer a amniocentese para ter a certeza e poder abortar, se a bebé for deficiente (descobri que cerca de 80% das mulheres que têm um filho com síndrome de Down abortam). E muitas mães, ao recusarem, são quase coagidas por eles para fazerem o teste, soube depois pelos testemunhos de algumas amigas e conhecidas, que se viram aflitas para manterem a sua posição de recusa.

No meu caso, tive a sorte de ser tão taxativa na primeira consulta que a médica não soube muito como insistir. Mas olhava para mim de tal forma incrédula que confesso que me senti como se estivesse numa fábrica de bebés, em frente a uma passadeira rolante, a vê-los sumirem-se numa máquina e a saírem de lá com o destino traçado: ‘Não tem defeito, siga. Tem defeito, lixo.’ E uma enorme pilha de bebés amontoados atrás…
Na segunda consulta, a médica só nos cumprimentou e o diálogo que se seguiu foi este:
‘Já sei…’ (a olhar para nós num misto de constrangimento e curiosidade)
‘Já sabe o quê, Dra?’
‘Já sei… Do teste…’
‘Ah, pois, o teste. Nós não quisemos fazer a amniocentese.’
‘Pois, também já sei…’ (continuando a olhar para nós num misto de constrangimento e curiosidade)
E eu a sentir-me de novo na fábrica de bebés… 


Parece que, nesta sociedade em que vivemos, tudo o que possa ter ‘defeito’ é para descartar como se não tivesse préstimo nenhum. A eugenia no seu melhor, dizia-me uma amiga depois. E soube também que terei tido azar nos médicos que me calharam, porque muitos não pensam assim. Mas que os há, há.

Enfim, fiquei com a sensação de que, se esta bebé tiver esta síndrome, a grande luta não vai ser educá-la, nem lidar com os problemas de saúde que ela possa vir a ter. A grande luta vai ser lidar com o preconceito, com a forma como a sociedade reage perante crianças diferentes. 

Quando leio comentários que dizem que não vale a pena trazer ao mundo uma criança assim porque não vai viver com dignidade, vai andar cheia de doenças e lhe vão chamar ‘atrasada’ a vida toda, fico chocada. Chocada. Porque a dignidade de uma pessoa depende, em muito, da forma como é tratada pelos demais. Porque as doenças tratam-se, minimizam-se e todos as temos. Porque muitos de nós tivemos de lidar a vida toda com gente a chamar-lhe nomes (a começar por mim, que ser inteligente acarretou esse tipo de dissabores) e não é por isso que não estamos cá, inteiros e de pé.

Ter síndrome de Down não é uma sentença de morte. Eu conheço um atleta paraolímpico com esta síndrome (quantos de nós o bateríamos numa piscina?) e outros que trabalham e se sustentam. A esperança média de vida não é muito alta (40 a 50 anos), mas não deixam de poder chegar à idade adulta e de eventualmente poderem contribuir para a sociedade em que se inserem e que tantas vezes os terá maltratado.
A probabilidade de a minha menina ter síndrome de Down não me assusta. Terá uma mamã e um papá que farão o melhor por ela. E uma Família inteira por trás que nos apoia i-n-c-o-n-d-i-c-i-o-n-a-l-m-e-n-t-e na nossa decisão, como já nos apoiou quando enfrentámos esta situação com a Carolina. Nos dizeres de uma mamã com uma filha com Down, temos em nós o ‘cromossoma do Amor’.

A minha amiga Ana um dia, a propósito disto (querida Ana, que tens palavras que criam raízes fundas no meu coração), disse-me: “É bom ver que tu não tens medo de outro tipo de perfeição”. E não tenho mesmo. Nem tenho a pretensão nem a arrogância de achar que a perfeição do meu corpo é melhor que a Perfeição do corpo da minha menina. Sei só que a quero muito cá fora, nos meus braços, venha como vier. E o futuro será escrito no seio de uma Família que a ama como ela é.

Aos meus amigos gostava de pedir alguma coisas. Se ela tiver síndrome de Down, não nos lancem olhares de comiseração nem de constrangimento. Não chorem, não nos lamentem, não nos critiquem por a querermos independentemente de tudo. Não façam deste assunto tabu, evitando falar dele connosco, tirar dúvidas, ajudar. Antes, alegrem-se porque somos abençoados com uma dádiva que muitos querem e não têm: ter filhos. E alegrem-se porque a nossa menina será imensamente amada. E, no que depender de nós, será imensamente feliz. O que pode uma pessoa mais querer desta vida?

Mafalda Frade


domingo, 12 de outubro de 2014

Há uma primeira vez para tudo… até para editar um livro! (by Paula Lobo)

Concentradíssima, a editar o livro!
10 de Julho de 2013. Este podia ter sido um dia como outro qualquer. E, em boa verdade, o dia em si, até foi. 

À data, eu trabalhava como Gestora de Marketing e Comunicação da Delegação de Braga da Cruz Vermelha Portuguesa, instituição para a qual reverteram parte das receitas do Ignite realizado na Cidade dos Arcebispos. Por esse motivo – profissional – aliado ao meu interesse pessoal por este tipo de eventos, fui até ao GNRation nesse final de tarde.  

Depois de algumas apresentações interessantíssimas (e outras nem tanto, verdade seja dita), surgiu o Ricardo Frade. Um tipo com ar tresloucado que sobe ao palco para, com um entusiasmo notável, contar que tinha vindo da Suécia para Portugal sem dinheiro. Lembro-me de rir, e de comentar com o Coutinho (um amigo que me acompanhou a este evento), aquando do quinto slide, que “este gajo” era “maluco!”. A terminar a sua intervenção, o Ricardo diz que vai iniciar a fase de escrita do livro, e que se alguém na sala estivesse disposto a ajudá-lo na tarefa de edição, era muito bem-vindo. E depois diz algo como “ali está uma menina! Já vamos conversar!”. A “menina” era eu. Eu tinha erguido o braço, sem pensar. Quando me apercebi dos rostos sorridentes voltados para mim entrei em pânico, baixei o braço e olhei, desesperada para o meu amigo. “Eu nunca editei um livro!”, disse-lhe. E ele, com a sua racionalidade característica, acalmou-me até chegar o momento de falar com o Ricardo.

Só mesmo depois do término de todas as apresentações é que conversámos, o que me deu tempo mais do que suficiente para ensaiar o discurso: “olhe, antes de mais parabéns pela apresentação, e pelo projecto todo, que é interessantíssimo! Espero que tenha muito sucesso, mas eu não devia ter erguido o braço. Não tenho a experiência e o know how de que precisa”. Quem conhece o Ricardo a esta hora está a rir e a pensar “oh rapariga a quem tu foste dizer isso!”. O Ricardo respondeu-me “então mas qual é o problema?”. “Nunca editei um livro”, confessei. “E depois? Eu também nunca tinha vindo da Suécia para Portugal sem dinheiro!”. Fitei-o, atónita, e completamente desarmada. “Diz-me lá, tens sensibilidade para isto, não tens? Eu preciso de alguém que perceba alguma coisa de edição de texto!”. “Bem, eu percebo alguma coisa. Quanto mais não seja porque faz parte da minha formação académica…”. “Que é?”, Inquiriu-me. “Comunicação. Escrevo textos com regularidade/facilidade. Já editei quase todo o tipo de textos. Jornais, revistas, newsletters… mas nunca um livro inteiro!”. “Boa! Vai ser uma grande experiência então”.
E está a ser. MESMO!
Paula Lobo, orgulhosamente ‘editora’.

sábado, 27 de setembro de 2014

A eterna aventura de escrever um livro!

Estamos a apenas algumas semanas de lançar este que é para mim como um bebé... Confesso que o mix de sensações é absolutamente novo para mim! O dia em que vi a capa pela primeira vez foi fantástico, o dia em que fechámos o texto foi especial, o dia em que percebi que estamos em condições de lançar o livro e que consegui resposta de grandes personalidades foi um sonho! O post de hoje é uma comemoração, um salto de alegria, uma gargalhada desbocada de quem conseguiu chegar tão longe!... 

Deixo-vos por isso as fotos, do trabalho a solo em casa e nos locais, à loucura do trabalho em equipa, com a Paula e os outros que connosco trouxeram o Pé Descalço até aqui... HOJE É DIA DE COMEMORAR!!!


 

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Dia 12 - Adeus, Paris! (excerto do primeiro esboço do livro!)

Um quarto de hora depois estava de novo na Gare d’Austerlitz. Dirigi-me à bilheteira, onde encontrei a menina que me atendera dois dias antes. “Conseguiu o dinheiro?”, perguntou. “Sim!”, respondi, e enquanto o diabo esfrega um olho recebi um bilhete para um “sumptuoso” lugar sentado no Intercité de Nuit para Irún. Sim, muito ficariam de nariz torcido por não ser uma cama, mas eu não:  TINHA UM BILHETE PARA SAÍR DE PARIS, para seguir para Sul, e isso era tudo o que me interessava, era o que mais queria! Agradeci a gentileza com que me atendeu, peguei nas minhas coisas e fui até ao piano: se há dois dias ele servira para escoar as minhas dúvidas e ânsias, hoje servia para espalhar a alegria que sentia! Toquei durante uns bons quinze minutos, até sentir fome. Eram cerca de 19h, estava na hora de atestar a barriga. “Vamos lá procurar uma solução!”, pensei, sorridente.

NOTA: este texto é apenas um excerto do primeiro esboço do livro, não o texto final. 

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Dia 11 - Ainda Paris... (excerto do primeiro esboço do livro!)


O "canto dos que pedem boleia"!
Devo confessar que estava a ficar preocupado: depois de andar a todo o gás pela Suécia, Alemanha, Holanda e Bélgica, e até França, parando apenas porque eu queria, ali estava eu “encalhado”! Caramba, seria assim tão difícil sair de Paris para Sul?! Que raio se passava?! Para ajudar à festa a barriga estava outra vez a queixar-se, e com razão: em 24h só comera uma sandes, um pacote de bolachas e três iogurtes, apesar de ter andado quilómetros a fio com a tralha às costas! Eram estes os meus pensamentos no momento em que decidi mudar de sítio e procurar uma solução para o almoço, e foi neles que fui remoendo enquanto subia a rua... até que me apercebi: “espera aí, tu estás a ter pensamentos idiotas e derrotistas, estás a queixar-te e a gastar energia com o problema e não com a solução... PAROU!”.
Controlar o que penso, detectar auto-conversas destrutivas e padrões de pensamento nocivos, que me levem num rumo diferente do escolhido, tudo isto são hábitos que criei nos últimos anos e ensino aos meus clientes. Nenhum atleta começa a maratona a pensar “vai ser horrivelmente difícil, vai doer MUUUIIIITTTTOO e vou perder!”, porque se o fizerem estão arrumados. Qual é a solução? Pensar no que queremos, direcionar o pensamento para a busca da solução e, se no limite o sentimento persistir e nos fizer voltar ao caminho errado, falar alto connosco próprios, desvalorizando e/ou ridicularizando o problema e auto-convencendo-nos (é mais fácil se nos ouvirmos realmente) de que vamos dar a volta. Foi o que fiz, tal era a intensidade do sentimento de azar e derrota: “Vá lá, deixa-te de fitas! Fizeste já mais de 2.600 kms, encontraste sempre soluções, pessoas e recursos. Aqui a cultura é diferente, sim, e isso causa confusão e vai obrigar-te a encontrar novas soluções, mas, que diabo!, abre os olhos e procura-as, só assim as encontras. Elas andam aí, de certeza!!! Por isso anima-te, faz um sorriso, endireita-te e levanta a cabeça, hás-de descobrir o caminho, ele aparecerá como até aqui!!”. Imaginam o que pensariam os outros transeuntes ao ouvir-me falar alto, rua fora? As caras de espanto deixavam antever que alguma reprovação social deveria haver, pelo menos, mas sabem que mais? Eu não queria saber! Se a minha felicidade dependesse do que os outros pensam de mim estava a abdicar da minha vida para as vontades dos outros! Além disso eu sabia que funcionava, ponto, e sabia que fora da zona de conforto é que encontraria as soluções, e foi com este espírito que continuei em direcção à igreja. 
NOTA: este texto é apenas um excerto do primeiro esboço do livro, não o texto final. 

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Dia 10 - Paris e uma mão cheia de "não" (excerto do primeiro esboço do livro!)


Quinze minutos depois começou uma azáfama de pedidos e explicações: durante quatro horas alternei entre esperar, tocar piano (sim, também aqui havia um), explicar a minha história a revisores e chefes de comboio e ouvir, invariavel-mente, um “non” como resposta. Pelo meio tive ainda tempo para dar o meu lugar ao pai de uns meninos pequenos que se tinham sentado ao meu lado, de ler mais uns quantos capítulos do meu livro, de voltar à bilheteira para me aquecer e tentar a sorte com outro funcionário (sem resultado), e de recordar da eterma estratégia que aprendera nos EUA: recebes um "não", agradeces e dizes para ti próprio “Next!”. 
Foi assim até ao último comboio: Hendaye, Bourges, Tours, Toulose, Brive la Gallarde, Albi, Luchon, Tarbes e outros tantos destino para onde eles partiam um a um sem mim... Até o Elipsos para Barcelona tentei, mas nada feito: à meia-noite e meia saiu o último comboio, e eu ainda estava em Paris... e agora?
Sentei-me na sala de espera da gare, agora vazia, a pensar na minha vida e no que iria fazer a seguir. Contabilizei dezassete “nãos” ao longo do dia, o que era um record absoluto, e se era verdade que tinha sobrevivido também era claro que assim não iria a lado nenhum. Saboreei por isso as bolachas que sobravam e decidi ficar por ali: pelo menos estava num sítio calmo, minimamente limpo, quente e seguro, e isso eram luxos que não poderia desperdiçar! Recostei-me na cadeira e preparei-me para dormir... achava eu! Dez minutos depois ouvi atónito o anúncio no sistema de som: “é uma da manhã e a estação vai fechar. Pede-se a toda a gente que saia”... o quê? A estação fechava e toda a gente era posta na rua?! Com aquela é que eu não contava! Perguntei à senhora das informações se era mesmo assim, ao que me respondeu que sim, que teria que deixar o edifício entretanto. E foi assim que me vi na rua, em Paris, à uma da manhã e sem fazer a mínima ideia de onde poderia passar a noite... Seria esta a minha primeira noite na rua? “Não”, pensei, “nem penses!”.
NOTA: este texto é apenas um excerto do primeiro esboço do livro, não o texto final. 

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Dia 9 - Antuérpia. Lille e Paris (excerto do primeiro esboço do livro!)



Enquanto esperava que o revisor me desse o bilhete, na ponta da carruagem, chegou ao pé de nós uma senhora que lhe pediu para a ajudar a encontrar o lugar. Ele deixou-me ali e acompanhou-a ao lugar, na carruagem seguinte, e foi aí que a coisa descambou. Aproximou-se de mim outro revisor, que não tinha assistido à conversa, e pediu-me o bilhete. Expliquei que não tinha, ao que ele respondeu que mo tirava, pegou na maquineta e perguntou para onde ia. Eu expliquei-lhe que estava à espera do colega dele, com quem tinha falado, mas ele insistiu em tirar-me o bilhete. Foi então que lhe expliquei que não tinha como lhe pagar, que tinha falado com o chefe do comboio e que o colega dele estava ao corrente da situação. Ele fez uma cara muito feia, e disse com voz irritada que eu não podia viajar sem bilhete. Insisti que o chefe do comboio e o colega revisor estavam ao corrente e pedi-lhe que falasse com eles, ao que ele pegou no telemóvel e desatou a falar francês com eles àquela velocidade especial que eles usam e que impede um estrangeiro de perceber o que quer que seja. Depois pediu-me para não sair dali (como se eu fugisse de um comboio a mais de 300 km/h!) e foi até à carruagem da frente. Voltou pouco depois para me pedir o passaporte. Vinha com cara de poucos amigos, e a irritação que demonstrava indicava que vinham aí sarilhos. Dei-lhe o meu cartão de cidadão, que ele rejeitou por não ter morada, pedindo um documento que tivesse. Expliquei-lhe que não tinha e que o cartão de cidadão era válido na União Europeia, ao que ele me perguntou a morada de residência e começou a escrever na maquineta dos bilhetes. Poucos minutos depois passou-me um papel que percebi ser uma multa, de 98€, deu-me uma descompostura ao estilo de “neste comboio só se viaja com bilhete, ponto final!”. Expliquei-lhe que nunca fora minha intenção enganar ninguém, que pedira autorização para embarcar, mas era escusado: preto era preto, branco era branco, e eu não tinha bilhete, logo levava multa: era assim que ele via a situação. Para rematar disse-me que teria duas horas para pagar a multa no guichet, e que onde eu arranjaria o dinheiro era problema meu, porque naquele comboio só se viajava com bilhete, etc, etc, etc... Estava em maus lençóis, pronto!
NOTA: este texto é apenas um excerto do primeiro esboço do livro, não o texto final. 

domingo, 24 de agosto de 2014

Dia 8 - Antuérpia, um dia de descanso, passeio e partilha (excerto do primeiro esboço do livro!)

As compras no Lidl foram muito parecidas com as nossas por cá, excepto no facto de eles não terem carrinhos nem cestinhos: na prática agarra-se numa caixa de cartão vazia que esteja à mão e pronto, colocam-se as coisas lá dentro e reza-se para que não se desfaça. Muito estranho!... 
Foi de caixa em punho que parti à descoberta do que seria o jantar, num processo que o meu miúdo mais novo adora: “Estás a escolher ao calhas?!”, pergunta ele ao ver-me tirar coisas das prateleiras por impulso, como que por inspiração, de uma forma aparentemente aleatória. “Não”, respondo, “estou a deixar a imaginação fluir, até porque ao olhar para os ingredientes percebes se são frescos e vais construindo os pratos com base nisso também!”. Não, não sou nenhum Gordon Ramsay ou Jamie Oliver, mas gosto de inventar na cozinha e de construir os pratos por impulso e feeling mais do que por receitas. Tipicamente ou resulta muito bem ou... enfim, esqueçam. Neste caso fui observando o que poderia usar para uma sopa fora do espectro das sopas enlatadas que Bianca usava, e os espinafres “saltaram ao olhos”. Cenouras, batata, cebola, alface, alho e arroz completaram as compras, com a proteína a ficar a cargo de uns bifes de perú. Bianca confiou simplesmente em mim, juntou algumas coisas que precisava, e em menos de quinze minutos estávamos outra vez à chuva (agora miúda) a caminho de casa. A colega dela chegaria entretanto, pelo que fui adiantando o jantar para termos oportunidade de conversar. Fiz uma sopa de espinafres (com puré à base de batata, cenoura e cebola), tão simples que até parecia mal, e para completar a refeição salteei a carne de perú (strogonoff sem natas e com pouco ou nenhum azeite), com vários temperos que juntei por instinto, como sempre, acompanhando com arroz e uma salada de alface fresca. Muito dirão que é tudo menos comida gourmet, mas têm que admitir que é muito próximo da nossa forma portuguesa de cozinhar e, convenhamos, face a um arsenal de conservas até parecia gourmet! Quando a colega dela chegou o jantar estava em “roda livre”, com tudo a cozinhar calmamente e o cheirinho da comida a encher a casa. Raro, por ali!
NOTA: este texto é apenas um excerto do primeiro esboço do livro, não o texto final. 

segunda-feira, 10 de março de 2014

Dia 7 - De Malmo a Antuérpia, na Bélgica (excerto do primeiro esboço do livro!)




"Vilnis ofereceu-se para dividir o seu almoço comigo, generosidade que aceitei, sem saber bem o que é significava... onde raio é que ele tinha o almoço? Descobri pouco depois, quando o vejo tirar um fogão (sim, daqueles de campanha, com um bico apenas) de um armário e a montá-lo no meio da cabina! Abriu o tecto de abrir, no topo do camião, à laia de chaminé, pegou numa panela, em algumas caixas de plástico que estavam no frigorífico, cortou uns legumes frescos, juntou água e voilà, sopa de carne ao lume!
 
Já alguma vez vos disse como odeio sopa de carne?... Pois bem, ali estava eu com ela à frente, preparado para mais um passo fora da caixa. Só não sabia o que me esperava! Ao meter uma colher de sopa à boca tive uma epifania culinária: como é que raio aquilo podia ser TÃO BOM?! Sim, era sopa de carne; sim, tirávamos os pedaços de carne para um prato e comíamos à mão entre as colheradas de caldo; e sim, o sabor era fabuloso! E tinha sido feita num camião... Onde é que esta receita tinha andado toda a minha vida?! Escusado será dizer que comi e chorei por mais. Mas além do sabor em si houve outra coisa que me aqueceu o coração: aqui estava aquele homem, que nunca me vira, e que decidira partilhar o seu espaço, o seu dia e a sua comida comigo, de forma totalmente altruísta e despreocupada... Marcou-me a sua generosidade, a sua transparência e a forma humilde como tudo aqui se estava a passar. Muito obrigado, Vilnis, muito obrigado!"